Ciúme e inveja: o mau emprego de um termo pelo outro

Consumida pela curiosidade, Pandora abre a caixa contendo todos os males da humanidade.

Consumida pela curiosidade, Pandora abre a caixa contendo todos os males da humanidade.

Em artigo publicado aqui anteriormente, discorri sobre a “confusão” que fazem algumas pessoas acerca do emprego dos vocábulos ciúme e inveja. Tal fato se dá não só por “pessoas comuns”; mas ainda por renomados palestrantes, e até mesmo por alguns dicionaristas, que os classificam como sinônimos.
Verdade é que não o são. Ambos possuem suas próprias características e peculiaridades; e assim sendo, devem ser empregados de acordo com a circunstância que os qualifica. Reitero que a distinção máxima reside na “triangulação“* (grifo meu). O ciúme apresenta sempre três figuras distintas envolvidas (sujeito ativo, sujeito analítico e motivo). Por outro lado, a inveja limita-se a dois entes envolvidos, mais especificamente um ente e uma coisa ou objeto.
Um exemplo clássico do uso de um termo pelo outro (inveja por ciúme), está presente na passagem bíblica de Gênesis (cap. 29 e seguintes). Segundo tal relato, Jacó possuía quatro esposas: Lia, Raquel, Zilpa e Bila. Lia e Raquel eram irmãs; sendo Raquel a esposa predileta de Jacó.
Por seu lado, Lia, a primeira esposa (irmã mais velha de Raquel), morria de ciúmes de Jacó com esta. Até aqui o emprego do ciúme se dá de forma adequada. Mas a “confusão” começa quando passa-se a afirmar que “Lia sentia ciúmes de Raquel”.
Nessa “triangulação”, Lia é o “sujeito ativo” da relação: aquele que se consome pelo ciúme. José, por seu lado, é o “sujeito analítico” da relação; ou seja, aquele de quem se tem ciúmes. Já o motivo do ciúme, pode-se afirmar que é Raquel. Portanto, não há que se falar “que Lia sentia ciúmes de Raquel”. Não se sente ciúmes do motivo. Este, sim, é o fato gerador. Nesse raciocínio, há que se afirmar que “Lia sentia ciúmes de Jacó (com Raquel)”.
Ainda segundo referida passagem bíblica, também se observa a “confusão” quanto ao emprego do termo inveja. A própria passagem bíblica dirá que “os demais irmãos de José sentiam inveja (grifo meu)  deste perante seu pai, Jacó” (Gênesis, cap. 37, vers. 4).
Embora não se possa negar que os sentimentos envolvidos sejam “mesclados” de inveja e ciúme, fato é que aqui se observa claramente a figura da “triangulação“: os irmãos de José, Jacó (o pai) e o próprio José. Sendo, respectivamente, “sujeito ativo”, “sujeito analítico” e “motivo”.
Seguindo a “confusão” do emprego de ambos os termos (ciúme e inveja), uns dirão que “os irmãos de José sentiam inveja do mesmo”; outros dirão que os irmãos de José sentiam ciúmes do mesmo. Em ambas as afirmações encontra-se a confusão no emprego dos termos.
Claro está que não se trata aqui do fenômeno da inveja; mas sim, do ciúme. E em havendo ciúmes, há que se falar: “os irmãos de José sentiam ciúmes do pai (Jacó) com José”. Fica claro, assim, que José exerce o papel de “motivo” do ciúme.
Ratifica-se tal afirmação pelo desenlace seguinte: os  irmãos intentam “eliminar” José (motivo do ciúme). O que de fato se dá na triangulação: a “eliminação” da causa primeira (motivo).
Em meu artigo “Ciúme e inveja: perdas nossas de cada dia“, enfatizei que no ciúme o grande foco é “o medo da perda do objeto de desejo”. Temendo perder tal objeto, o ciumento, possuído por uma falsa impressão de vitória, elimina-o.
Ainda aqui se dá novo erro. Considerando que o objeto de desejo não é o motivo do ciúme, eliminar aquele não quebra a triangulação. O que nos incomoda (motivo), não é o que merece ser extirpado?
Não obstante, observa-se que na prática não é assim que se comporta o indivíduo dito ciumento. Possuído pela ameaça da perda do “objeto de desejo” (sujeito analítico), acaba por eliminar este, e não o motivo real causador da situação. Sua intenção é “ferir” o objeto amado; causar-lhe dor. É o clássico chavão “matou por amor“. O poeta soube muito bem exemplificar: “o ciúme é a causa do meu desespero… Você há de rolar como as pedras que rolam na estrada…”. (Vingança, Lupicínio Rodrigues).
Há que se considerar ainda que, em alguns casos, quando a triangulação é suficientemente “forte”, o motivo do ciúme desempenha também um papel “relativamente ativo”. Explico: tendo o motivo do ciúme eventual “interesse” na figura analítica, muitas vezes deixa transparecer algum tipo de comportamento ou sentimento (ainda que de forma inconsciente), que acaba por despertar a atenção desse por si. Nesse ínterim, cabe ao “sujeito ativo” da triangulação identificar eventual “ameaça” à relação, e assim, envidar esforços para “desqualificar” a figura do “motivo do ciúme”, sob pena de “favorecer” o papel “ativo” deste.
Tal não se aplica à situação descrita acima. José (motivo), imbuído de sentimentos puros de índole e caráter, não desenvolve nenhum tipo de sentimento que  possa vir a favorecer o ciúme  em seus irmãos. Demonstra, assim, possuir uma autoestima suficientemente forte, não se deixando “contaminar” pelos sentimentos vis e mesquinhos daqueles.
Conclui-se, portanto, que o indivíduo ciumento possui um ego fragilizado, o qual tende a compensá-lo pela demonstração de uma imagem “supostamente” estável1.
Entretanto, corroída por desconfianças – nem sempre reais -, a pessoa ciumenta alimenta-se de seu próprio veneno. Tal qual uma caixa de Pandora”, vive prestes a irromper-se e espalhar suas vilanias.
Pode-se perguntar: como conter essa irrupção de sentimentos destrutivos? É o ciumento capaz de administrar seus próprios impulsos, ao pôr em prática seu autocontrole? Será ele capaz de empregar toda sua energia psíquica para a elevação de sua autoestima e seu enriquecimento enquanto parte integrante de uma relação?
O dia a dia tem demonstrado que o indivíduo que apresenta dificuldades em “domar” seu ciúme é em geral instável em suas ações e relações. Sem a devida ajuda psicológica, é incapaz de saber lidar com suas próprias armas. Torna-se vulnerável. É suscetível. Vive no fio da navalha.
Mas isso já é tema para uma nova conversa.

  

*Triangulação do ciúme:
– sujeito ativo: a pessoa que sente o ciúme
– sujeito analítico: a pessoa de quem se sente o ciúme
– motivo do ciúme: a causa propriamente

 

¹ Deslizes (letra de Michael Sullivan e Paulo Massadas)
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